Passeio Público - “Porto (In)Feliz”
Estela Cardoso - Porto
Tema a que se refer: Carta Aberta ao Arquitecto Gomes Fernandes - JN 25 de Julho de 2007
Os Portuenses e visitantes do Porto estarão certamente lembrados dos anos idos da década de 90 quando começavam a surgir alguns, ainda poucos, cidadãos a “prestar auxílio” aos automobilistas que procuravam estacionamento. Recordo até que “o auxílio que prestavam” foi por muitos considerado precioso (há imprensa onde esta opinião foi afirmada), porque os automobilistas aparcavam nos lugares indicados, e entregavam-lhes uma moeda com a condição de ele accionar o parquímetro com um valor mínimo se, entretanto, o polícia chegasse, diga-se, apenas o suficiente para ludibriar o senhor agente.
Vi muita gente com responsabilidades sociais e que se afirma de esquerda (duvido…) adoptar este comportamento. Alguns até entregavam a chave do carro quando estacionado em lugar “perigoso”…o que também acontecia junto aos cemitérios. As autoridades de então (no tempo em que as vacas eram gordas…),”esquecidas da responsabilidade do cargo” assistiam serenas e até colaborantes com o fenómeno, que perante tanta passividade se transformou rapidamente num monstro : – o consumo e tráfico de droga, com os graves problemas morais e sociais que lhe estão associados, tornaram-se de tal modo explícitos, que começaram naturalmente a fazer parte do quotidiano dos portuenses, que quase sem se aperceberem passaram a financiar a actividade dos traficantes…
Creio que em 1995 o Sr. Presidente da Câmara, provavelmente preocupado com as receitas que os parquímetros deveriam gerar, mas que por virtude do fenómeno não entravam nos cofres da Câmara, até se lembrou de profissionalizar estes cidadãos e dar-lhes um boné para maior facilidade de identificação.
Recordo, já no início da década de 2000, encontrava-me na caixa do supermercado localizado na Pr. Francisco Sá Carneiro, de assistir ao assédio que a “senhora da caixa” sofria, exercido por dois destes profissionais, que, impacientes pela espera, lhe exigiam a devida atenção para lhes trocar as moedas pelas notas…
A fila era longa, e aproximava-se a hora do fecho do estabelecimento. Talvez por isso a Senhora responde bruscamente que já não precisa de mais moedas…que já não tem tempo para as contar…e que a deixem em paz…Pedindo desculpa desabafa com os clientes: - Isto é insuportável, andam sempre aqui para trocar as moedas que já nem lhes cabem nos bolsos …Sabe, minha Sra., ganham mais num dia, do que eu ganho num mês…Alguns destes são arrumadores, mas vendem droga ao mesmo tempo aqui nas nossas barbas… Só a Polícia é que não vê…
De facto o monstro tornou-se tão rentável que em 2001 era sabido, que em vários locais da cidade (Hospital de S. João, Pr. Francisco Sá Carneiro por exemplo) se tornou habitual pela manhã aparecerem carrinhas “a despejar estes profissionais”, aparecendo horas mais tarde, para depois da recolha da receita, distribuir a merecida “refeição”, regressando mais para o fim do dia recolhendo-os para o “merecido repouso”.
O monstro engordou … e tornou-se assustador. Onde estava o Senhor, Sr. Arquitecto Gomes Fernandes? que não viu, nem previu nada… Não lhe terá passado em algum momento de lucidez, que os ”projectos” que entretanto o seu executivo foi implantando estavam a alimentar o monstro?
Todos sabemos que a questão dos arrumadores é uma forma de exibição de MISÈRIA que rápida e perigosamente se torna contagiosa. Também por esta razão como bem (só) agora parece ter percebido, não é só uma “questão social e de autoridade pública”, mas é também de Saúde Pública. Mas nem uma coisa nem outra o seu partido conseguiu ainda perceber, razão pela qual continua a gritar tanto e “a gastar a tal energia e credibilidade, disparando acusações gastadoras de tempo, o mesmo que deveriam consumir a pensar” para assim se manterem disponíveis para colaborar ou pelo menos tentar conhecer de boa-fé o que se faz, justamente “porque o problema é de todos”. E este conselho aplica-se inteiramente a si próprio Senhor Arquitecto Gomes Fernandes. Não basta ser solidário pela bicicleta. Diga-me por favor o nome do país estrangeiro onde o Senhor se abrigou todos estes anos, sobretudo aqueles em que deixaram engordar o monstro?
Verifico, alegremente, que despertou para o fenómeno…durante os anos de 2002 a 2006… É por isso que vem agora dizer - Jornal de Notícias, 25 de Julho de 2007, no seu art. “Porto (in) Feliz” - que o projecto falhou e que o falhanço era previsível.
Não tem estado de boa-fé a analisar o fenómeno. Ora eu, que ao contrário do Senhor sempre me preocupei com esta ”coisa menor” da exclusão social, tenho conhecimento que o projecto não falhou, corre é o risco de se extinguir porque o Instituto da Droga e Toxicodependência rompeu em Julho de 2006 o protocolo celebrado com a Câmara Municipal do Porto, muito embora só agora, e, depois de um exaustivo processo de negociação (este sim, se tornou numa “dolorosa penitência”) o Sr. Presidente da Câmara tenha tornado publico este facto. Parece que afinal tendo o Senhor já previsto este desfecho, sempre andou (bem ou mal) atento ao Porto Feliz…ao seu sucesso…!
Como sabe o Sr. Director do IDT veio ao Porto para dar na praça pública uma resposta à Câmara Municipal. A resposta que não deu com a reserva que as relações entre instituições impõe. E fê-lo (a acreditar no que li nos jornais) em conferência de imprensa na concelhia do seu Partido, inaugurando, provavelmente, deste modo, um novo estilo de relacionamento entre Órgãos do Estado. … Há que ser subserviente nos dias que correm! Malandrice … Ele também gosta de fazer a festa … lançar os foguetes…
Será que o Sr. Dr. João Goulão quando disse que o Projecto ficava caro ao IDT (pelo que percebi ele até só pagava 1/3 dos custos…), terá referido quanto custa ao estado (ou no mínimo ao IDT) o tratamento de cada cidadão toxicodependente?... E o custo/benefício ? será que ele tem esta avaliação e os jornais não publicaram? também gostaria de saber…
Mas fiquem tranquilos os Portuenses, porque os argumentos que ele utilizou são falsos. Mentiu despudoradamente. E isto faz-nos ressurgir a esperança de que o Sr. Primeiro Ministro poderá encontrar uma solução, até porque o Sr. Ministro da Saúde revelou à Lusa ter simpatia pelo projecto expressando que até o considera bom…
Acredito que vá surgir por aí uma associação (dita de solidariedade social) que dará continuidade às ideias e metodologias lançadas no Porto Feliz, mudando naturalmente o nome ao projecto. Quem sabe, provavelmente, os mesmos que no passado ajudaram a engordar o monstro, terão aprendido com a experiência destes cinco anos, e voltem agora ao terreno pensando ser capazes de fazer agora, o que não souberam fazer até 2002. Não o farão é com certeza com o mesmo empenho, dedicação e rigor financeiro para os cofres do Estado com que os autores e técnicos do PORTO FELIZ o fizeram, com a marca RIO.
Mas cuidado… porque agora os Portuenses têm a obrigação de exigir uma avaliação rigorosa em todos os aspectos (custos e não só), daquilo que se faz no País e particularmente do que poderá vir a fazer o IDT no PORTO, para não voltarmos a ter “mais do mesmo”.
Senhor Arquitecto, numa coisa estamos perfeitamente de acordo: “as visões partidárias são sempre sectoriais e egoístas”. É por isso que o Senhor não sabe do que fala … ou então não fala o que sabe…Malandrice… o Senhor gosta de fazer a festa, lançar os foguetes e correr atrás das canas…
Mas não é o único, fique tranquilo que há pior: Conheço um deputado que ao contrário do Senhor teve oportunidade de conhecer bem o Porto Feliz. Não só colaborou na sua execução, como ainda expressou publicamente o seu agrado com o projecto e por ter finalmente surgido “um executivo verdadeiramente preocupado com a exclusão social”…
Mais tarde (já ao serviço de outro partido para o qual se deslocou, creio que em 2004, reiterou essa sua opinião, aquando de uma visita que realizou aos locais de intervenção –, a intervenção no terreno, os abrigos, os gabinetes de investigação e avaliação… Ora veja lá o Senhor, que só depois que tomou assento na Assembleia da República (já decorridos quatro ou cinco anos de colaboração) é que apareceu a declarar que o projecto era uma fraude. Na verdade o que é uma fraude, é tratar desta forma os Portugueses…que ainda continuam a ter o DIREITO À INDIGNAÇÂO.
Também manifesta no seu artigo vontade “que o Senhor Presidente abrisse um espaço de debate …sério… Deixando claro que não se trata de uma questão partidária mas de cidadania…” Ele até o pode fazer, isso nem é nada comigo…
Embora eu, uma pobre alma das beiras criada no campo, habituei-me a ouvir o povo calcinado pelos rigores da vida, dizer - “isto é deitar pérolas a porcos”, sempre que se via confrontado com desperdícios…
Mas como sou pessoa de boa-fé, vou admitir que o Senhor não sabe do que fala, e então vou explicar-lhe como as coisas se passaram desde 2002.
--Quando o Dr. Rui Rio se candidatou, prometeu aos Portuenses que, se fosse eleito, iria abraçar a luta contra a exclusão social…e ainda me lembro do enorme “foguetório” que o seu partido gastava, fazendo explodir qualquer manifestação ou proposta de ideias relativas ao tema. E para isso teve todo o apoio de certa comunicação social, nomeadamente “este seu jornal”. Nessa época eu até entendia tamanha explosão, porque aquilo a que o Povo se habituou a ouvir, é que a luta contra a exclusão social é monopólio da esquerda - porque é lá que está a bondade, a generosidade…é lá que estão os homens bons… É claro que isto foi dito tantas vezes que até se tornou credível… e, vai daí, muitos homens maus… mas mesmo muito maus… que eu conheço, mudaram-se para lá de armas e bagagens. Mas, no seu quotidiano, continuam a ser mesmo muito maus… cada vez piores… E ao referir-me à esquerda refiro-me não só ao Bloco como também ao PS, que como os pobres dos Portugueses estão a dar conta é um partido de esquerda…
Devo aqui ressalvar a honra do PCP que nesta matéria teve um comportamento responsável.
Ora sendo o Dr. Rui Rio da direita (inspire fundo, encha bem a boca de ar e soletre pausadamente – d i r e i t a – a fim de dar tempo ao espírito para absorver bem a dimensão da maldade), onde se posicionam os maus (tal como eu que o apoiei), fazia todo o sentido tamanha explosão. Não estamos esquecidos que foram os Senhores a inaugurar as passagens de ano com enormes foguetórios, sem os quais hoje o Povo não pode viver.
Pois bem …ganhas as eleições, o Dr. Rui Rio que não é Homem de se ficar pelas promessas, considerando não só “que o problema era complexo e requeria um consenso político para ser implementado com êxito”, mas também porque é essencialmente um problema técnico/científico, reuniu com os autores do projecto, (pessoas que se o Senhor não conhece, já certamente terá ouvido falar) dando-lhes toda a liberdade e meios para tratarem do estudo e consequente implementação, o que no plano político veio a consolidar-se na Fundação para o Desenvolvimento Social do PORTO.
Mas, ó Senhor Arquitecto, pode ficar tranquilo, porque não foi criada nenhuma sociedade secreta…
O espaço de debate que o Senhor agora reivindica, foi aberto desde que o PORTO FELIZ foi implementado, e isso aconteceu com toda a seriedade, porque também nesta matéria o Dr. Rui Rio deu toda a liberdade aos técnicos responsáveis…sempre se comportando, como os democratas autênticos se deveriam comportar: sem demagogia e com responsabilidade, dando ao político o que é do domínio da política e dando à ciência o que é do domínio da ciência…
O Senhor e o seu partido é que nunca lá estiveram… Viraram-se para o outro lado… e até fizeram muito bem… estar lá para quê? Pois se estas questões da exclusão social nem sequer são um problema cultural nem nada…
Pode dizer que estou a ser injusta consigo…que até emitiu opinião pelo interesse do programa…Eu li…Mas se a motivação que o levou a “faze-lo” é aquela em que estou a pensar…deixe que lhe diga : - Assim não vale… Porém, se estiver errada, apresento-lhe desde já o meu pedido de desculpas.
Mas sempre lhe vou dizendo, o responsável pelo projecto (que por acaso nem é mau homem) sempre manteve toda a disponibilidade para esse tal espaço de debate. Vou deixar-lhe aqui nota de algumas iniciativas (as que recordo) já há muito realizadas e onde também o Senhor até poderia (e deveria) ter participado, se o problema o preocupasse seriamente. Posso garantir-lhe que o desgaste que a especulação intelectual que teve de fazer agora para escrever o seu artigo teria sido poupada, isto para além de ter perdido a oportunidade de utilizar o seu tempo de forma mais construtiva e útil à sociedade….
Tratando-se de uma questão de cidadania como tão bem o Senhor o sabe dizer, mas que estas três ilustres personalidades, tão bem saboreiam sentir, garanto-lhe que nunca estiveram a “soldo” de qualquer partido político, nem de qualquer tipo de contrato, remuneração ou outro interesse… E chamo-lhes ilustres apenas pelo esforço que fazem na procura da decência que pretendem dar a todos os aspectos de suas vidas. Até hoje no bolso só sentiram o peso das despesas com a missão que assumiram levar a cabo, conscientes de que chegado o momento em que for possível outros fazerem melhor, o que é desejável, eles saberão retirar-se da sombra onde sempre estiveram. Sobre a qualidade técnica/científica deles, não me vou pronunciar, mas é interessante referir que a senhora Governadora Civil, que também tanto “alarido” (para usar a sua expressão) fez enquanto foi vereadora, não se preocuparia nada em ter um deles como colaborador.
Acredite senhor Arquitecto Gomes Fernandes que sei o que falo e do que falo.
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